‘Vagabundagem mental’ pode contribuir para a aprendizagem, mostra estudo


Equipe do Centro de Pesquisas em Neurociências de Lyon, na França, mostrou que as distrações pontuais, que surgem enquanto estamos ocupados, podem ser úteis na aquisição de certas habilidades, como aprender um novo instrumento ou um idioma. Distração pode ajudar na aprendizagem?
Reprodução/Freepik
Durante a execução de uma tarefa, mesmo se estivermos totalmente concentrados, haverá momentos em que nos “desligaremos”: nossos pensamentos se desconectarão do que estamos fazendo. Os cientistas chamam esses períodos de “vagabundagem mental”, ou “mind wondering”, em inglês.
➡️Estudos mostram que os seres humanos passam entre 30% e 50% do tempo divagando.
“Durante cerca de 50 anos, a ciência mostrou que este estado prejudicava a cognição, porque afetava a atenção”, diz o neurocientista Dezső Németh, do Centro de Pesquisas em Neurociências de Lyon, na França.
Segundo ele, estudos mostraram durante décadas que esses momentos de distração poderiam afetar a memória de trabalho, um componente essencial da função executiva no cérebro, responsável pelo armazenamento temporário de informações. E mais: o excesso de “vagabundagem mental” poderia influenciar na produtividade dos adultos a ponto de afetar a economia de um país.
📖Németh, no entanto, descobriu que há um lado positivo na distração: ela pode contribuir para a aprendizagem.
O neurocientista húngaro questionou quais seriam os pontos positivos desses momentos em que nossos pensamentos derivam independentemente da nossa vontade. Para isso, ele e sua equipe recrutaram 135 pessoas para participar de testes online. Durante o exercício, uma imagem aparecia e desaparecia logo em seguida em uma das quatro janelas da tela. Os voluntários tinham de adivinhar em qual dos espaços vagos ela surgiria novamente.
Questionados sobre o foco e o surgimento de pensamentos aleatórios durante a atividade, 117 participantes relataram ter pensado em outros assuntos pelo menos uma vez. A pesquisa mostrou que esses voluntários que divagaram durante o teste tiveram melhores resultados em comparação aos participantes que permaneceram focados, tentando entender de forma consciente qual seria a sequência de aparecimento do desenho na tela. 
‘TÉCNICA DO CÉREBRO PODRE’: alunos usam app para transformar material de aulas em vídeos viciantes
Aprendizagem implícita
A conclusão foi que sonhar acordado favorece a chamada aprendizagem implícita e as conexões cerebrais com o ambiente.
 “Você aprende mesmo sem perceber que está aprendendo alguma coisa. Nosso cérebro sempre está tentando descobrir modelos e estruturando o ambiente”, explica o neurocientista.
➡️Segundo o pesquisador, a aprendizagem implícita propiciada por essas distrações pontuais facilita a aquisição de novas habilidades, como tocar um instrumento, praticar um novo esporte ou aprender um idioma. 
Agora são necessárias mais pesquisas para determinar até que ponto esses momentos de divagação influenciam o processo de aprendizagem implícita apenas de forma positiva, ou se isso pode ser variável. É preciso diferenciar também, diz Dezső Németh o que acontece no cérebro durante a aquisição de conhecimentos totalmente novos e o aperfeiçoamento de competências já existentes.
Técnica do ‘cérebro podre’: alunos usam app que transforma textos longos em vídeos curtos
Consolidação da memória
O processo cognitivo que envolve a “vagabundagem mental” está conectado ao da consolidação da memória, que acontece durante o sono. Durante o estudo, a equipe do cientista húngaro também notou semelhanças entre esse estado mental e os observados no cérebro enquanto estamos dormindo, que ocorrem no córtex pré-frontal.
 “Esse processo cerebral está conectado ao fenômeno que chamamos em neurociências de replay. Isso significa que, se você está executando uma tarefa em um determinado momento e começa a divagar, seu cérebro inconscientemente vai continuar repetindo essa tarefa, e isso vai ajudar na consolidação da memória”, explica o cientista húngaro.
A hipótese da equipe, que ainda precisa ser comprovada, é que o cérebro simula as informações que estão chegando, e as reproduz como se estive rebobinando um filme. Durante esse processo, a aprendizagem provavelmente seria reforçada. É preciso também investigar, diz o pesquisador, como as emoções envolvidas nos pensamentos que surgem enquanto estamos ocupados interfere nesse processo.
Vídeos de Educação
Adicionar aos favoritos o Link permanente.