Faleceu o escritor Enéas Athanázio

O escritor Enéas Athanázio faleceu nesta sexta-feira (4), no Hospital da Unimed, em Balneário Camboriú, exatamente uma semana depois de completar 90 anos.

Natural de Campos Novos, era advogado, promotor de justiça e um dos mais destacados escritores de Santa Catarina. Quando se aposentou das funções públicas, morou três anos em Florianópolis e, em 1988, escolheu Balneário Camboriú para viver e foi onde escreveu a maioria dos seus 62 livros publicados.

Enéas foi colunista do jornal Página 3 durante três décadas.

Ele se formou advogado na Universidade Federal de Santa Catarina em 1959, trabalhou em comarcas catarinenses, paranaenses e gaúchas e nessa época já escrevia textos e colunas para jornais e revistas.

Em 1968 prestou concurso e se tornou promotor de justiça, atuando nas comarcas de Anita Garibaldi, Capinzal, Canoinhas, Rio do Sul e Blumenau, onde se aposentou como promotor de justiça de última entrância.

Foi Secretário Adjunto da Justiça do Estado (l987/l989), exercendo por diversas vezes, interinamente, a chefia das pastas da Justiça e da Segurança Pública.

Foi vice-presidente da Subseção da OAB de Blumenau e, na mesma cidade, foi um dos fundadores e o primeiro presidente do Conselho Municipal de Cultura.

Foi professor de Direito na FUNPLOC, hoje Universidade do Contestado – UnC (Legislação Social), e na Universidade de Blumenau – FURB (Direito Constitucional).

Sua carreira literária começou com o livro de contos “O Peão Negro”, em 1973. No ano passado, Enéas publicou o livro de número 62. Também escreveu 15 opúsculos e continuava escrevendo contos, ensaios, poemas e colunas.

O conto foi o gênero predominante em sua obra, sendo considerado pela crítica um regionalista dos Campos Gerais.

Em sua carreira literária foi biógrafo de Godofredo Rangel e Crispim Mira, um estudioso de Lima Barreto e Gilberto Amado e um especialista em Monteiro Lobato.

Foi um colecionador de prêmios e distinções.

Nos últimos anos, sempre que publicava mais um livro, Enéas confidenciava que este seria o último de sua carreira. Não foi diferente, no ano passado, quando publicou ‘Livros sobre Livros – Escritos diversos’, o número 62, afirmando ou informando que seria sua última obra e que rendeu um comentário do jornalista Waldemar Cezar Neto.

O escritor e professor Guilherme Queiroz de Macedo, funcionário técnico administrativo da Universidade Federal de Minas Gerais, lançou em novembro/22 seu terceiro livro/opúsculo sobre o escritor catarinense Enéas Athanázio ‘O Articulismo Cultural de Enéas Athanázio’.

Saiba mais sobre a vida e a obra de Enéas Athanázio em texto da professora universitária Fahena Porto Horbatiuk, publicado em julho de 2024, no Jornal Página 3.

Enéas era casado com Jandira, pai de Márcia, José, Eneida e Patrícia; avô de Lívia, Bruno Henrique, Vivian, Isabela e Ana Clara e bisavô de Sofia e Pedro.

O velório está acontecendo no Crematório Vaticano e a cerimônia de despedida está marcada para às 17h deste sábado (5).

Leia o último artigo de Enéas publicado no Página 3, no dia 31 de março de 2025

UM LIVRO INDISPENSÁVEL

Luiz Carlos Verzoni Nejar, que adotou o nome literário de CARLOS NEJAR, está publicando a quarta edição, revista e ampliada, de seu livro “História da Literatura Brasileira”, que abrange, segundo o subtítulo, desde a carta de Caminha até os contemporâneos (Editora Noeses – São Paulo – 2022). É um volume de esmerada apresentação, e 1126 páginas, compendiando toda a produção literária nacional desde os primórdios até os dias de hoje, sem esquecer os mais recentes expoentes de nossas letras de todos os recantos do país. É uma obra que exigiu do autor uma dedicação incomum e um trabalho hercúleo para sua execução. Tornou-se, em consequência, cada vez mais indispensável ao conhecimento de nosso panorama literário como aconteceu desde a edição inicial. 

Poeta de grande talento e sofisticada produção na área da poesia, como tal festejado pela crítica mais categorizada, o autor se revelou um conhecedor seguro da literatura nacional, movendo-se nesse campo com absoluta segurança. Como afirmou o analista Nelson Mello e Souza, “é um livro de crítica literária para ser lido como se bebe um grande vinho: devagar.” Com efeito, é muito bem escrito, com clareza e sem perder a densidade, tornando a leitura agradável e suave. Não obstante, serve também como segura fonte de informações para quem pretenda se aprofundar na obra deste ou daquele autor. 

Partindo da carta fundadora que “ao descrever a terra, a palavra foi estabelecida para o futuro”, o autor aborda a figura e a importância de Anchieta. Comenta o barroco, com Gregório de Matos e Vieira, analisa a Arcádia e os poetas mineiros do Século XVIII e o primeiro e o segundo romantismo brasileiro, detendo-se em cada um de seus integrantes, focalizando detalhes curiosos como faz com Castro Alves. Machado de Assis e seu gênio merecem um capítulo especial rico de ensinamentos e interpretações, muitos deles surpreendentes sobre um autor cuja obra tem sido largamente estudada. Lima Barreto, um dos meus “monstros sagrados”, João do Rio e Humberto de Campos também desfilam em páginas brilhantes. O reino marginal, o cronista das sombras que sofrem merecem abordagens precisas, como também a figura múltipla de Afrânio Peixoto, ficcionista e cientista. Afonso Henriques de Lima Barreto, mulato com nome de rei, como diziam seus detratores, João do Rio, o jornalista que revelou os mercados e as feiras para bem conhecer as cidades e a alma encantadora das ruas de sua época, antes da violência desvairada de hoje e o sofrido Conselheiro XX, tão cedo alçado à glória literária e consumido pela doença e pela desgraça. Apresentam-se os simbolistas, com destaque para Olavo Bilac, ídolo de sua época, seguidos pelos intermediários, entre eles Alceu Wamosi, figura carismática, misto de aventureiro e revolucionário e o catarinense Luiz Delfino. O Rio Grande amado, chão do autor, recebe um quinhão especial onde avulta o gênio de Simões Lopes Neto, o pai do regionalismo campeiro que tanto influenciou os catarinenses como Tito Carvalho e outros. Os pré-simbolistas, avultando Da Costa e Silva, a grande voz poética do Piauí, consagrador do Velho Monge, o rio Parnaíba, o mar interior daquele Estado. O simbolismo brasileiro tem seu momento, avultando Cruz e Sousa, o maior poeta catarinense de todos os tempos. Entram em cena o romance realista e o naturalismo. Euclides da Cunha e “Os Sertões” merecem as galas de um capítulo especial, assim como Raul Pompeia, Coelho Neto e Rui Barbosa. Eis que surge Monteiro Lobato, outro de meus “monstros sagrados”, inovando, abrindo caminhos e enaltecendo a infância até então sem ter muito que ler. Os pré-modernistas ou pós-simbolistas entram em cena, destacando-se Afonso Schmidt e Paulo Setúbal. O modernismo e seus múltiplos poetas marcam forte presença.

Assim, passo a passo, vai o autor reconstituindo a história literária nacional. Épocas, movimentos, escolas, afiliados. Ficcionistas, poetas, ensaístas. Gilberto Freyre e Câmara Cascudo, os poetas pós-modernistas, Mário Quintana, Helena Kolody.  O chamado romance documental dos anos 1930, seguidores, afluentes, variantes, continuadores. Numerosos e de grande riqueza e variedade. Poetas emblemáticos, João Cabral e Ledo Ivo.  Poetas da Geração de 1945 e os que foram além de seus cânones. Guimarães Rosa e o grande sertão merecem um dos melhores ensaios que li e Gilberto Amado é evocado pela prosa mágica de suas memórias (Para minha surpresa ali sou transcrito – p. 715). A geração dos cronistas que lapidaram o gênero, tendo à frente o mestre Rubem Braga. Os numerosos ficcionistas da década de 1960, de norte a sul. E os que vieram depois, como os catarinenses Flávio José Cardozo, Deonísio da Silva e Cristóvão Tezza. Ariano Suassuna também merece abordagem especial, o mesmo acontecendo com o teatro nacional focalizado desde os primórdios. Péricles Prade, Lindolf Bell e C. Ronald também são objeto de análise.

Numerosos outros autores são resenhados, inclusive os que se dedicam ao mais escabroso dos gêneros literários, como dizia Agripino Grieco: os críticos de ontem e de hoje. Escritores dedicados a todos os gêneros são lembrados e merecem acolhida nestas páginas generosas. Entre eles, recorde-se de Nelson Hoffmann, falecido no ano passado, ficcionista, crítico, diarista, figura carismática e líder nato que de uma minúscula cidade da fronteira gaúcha exercia admirável influência positiva em todo o Sul e até no país. Redator do extinto jornal “O Nheçuano”, a quatro mãos com a filha Inês, poeta, praticava sem cessar o que Câmara Cascudo rotulava de intriga do bem. Nelson Hoffmann criou o personagem Dr. Landblu cujas aventuras policialescas encantavam os leitores como acontece no romance “Onde está Maria?” Ele faz muita falta e Nejar pratica um ato de justiça ao lhe dedicar um verbete.

William Agel de Mello, considerado o maior linguista vivo do país também merece justas referências. Autor de uma obra monumental na qual avulta a inspirada ideia de um idioma panlatino, também é ficcionista e tradutor. Diplomata de carreira, exerceu suas funções na África e na Europa e dessas experiências extraiu excelentes ensaios. Redigi algumas notas sobre sua obra hoje reunidas no livro “A Obra de William Agel de Mello.”

Para encerrar, permito-me anotar que também eu mereci um verbete às páginas 1102 e 1103.

O livro de Carlos Nejar é um marco em nossas letras. Há muito tempo não se editava obra de tal envergadura e importância. Deve estar sempre à mão dos que se entregam ao mais solitário dos ofícios – o de escrever – para sucessivos mergulhos no mar de ensinamentos que ele contém.

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