Um estudo acende um sinal amarelo para as empresas brasileiras

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Diante dos sinais de que a Selic pode fechar o ano em 15%, atingindo o maior patamar desde o final de maio de 2006, o sinal amarelo está ligado para a questão da alavancagem das empresas.

A relação entre a dívida líquida e o Ebitda das companhias está no radar de especialistas ouvidos pelo NeoFeed, que veem indícios de que o serviço da dívida começa a pressionar muitas empresas, inclusive grandes nomes.

Segundo um levantamento feito pela Íntegra ao NeoFeed, a alavancagem financeira de um grupo de 153 empresas de 10 setores diferentes, sociedades anônimas, operacionais e não financeiras, alcançou 2,4 vezes ao fim de 2024. O resultado interrompeu a queda iniciada em 2021, quando a relação entre a dívida líquida e o Ebitda atingiu 3,3 vezes.

E no momento em que a economia brasileira começa a demonstrar indícios de desaceleração, com prejuízos para o desempenho operacional, a situação pode fazer com que o número de pedidos de recuperação judicial em 2025 supere o recorde estabelecido no ano passado.

A situação é particularmente complexa para um grupo de 33 empresas, cerca de 21% do total analisado pela Íntegra. Esse grupo fechou 2024 com uma relação entre dívida líquida e Ebitda superior a 3,5 vezes, superando o patamar de 3 vezes considerado por especialistas como limite saudável e que é muitas vezes aplicado como covenant de dívidas emitidas.

“O custo da dívida no Brasil está alto e precisa ser pago num curto espaço de tempo”, diz Renato Franco, sócio-fundador da Íntegra Associados, consultoria especializada em reestruturação de empresas. “É uma travessia potencialmente complexa para as empresas nesses próximos dois anos, porque os juros vêm altos desde 2021. E isso provavelmente ainda vai perdurar por um ano e meio ou dois.”

Esse volume de dívida se torna ainda mais pesado com o atual patamar de juros. Com a Selic apontando para a casa de 15% ao ano, uma empresa média toma um empréstimo a Selic mais 7%, levando o custo a 22% ao ano, destaca Franco. “Que empresa hoje que tem Ebitda capaz lidar com juros neste patamar? Não são muitas, são poucas”, diz.

O estudo da Íntegra cita transportes, propriedades comerciais, agronegócio, saúde, aviação, varejo e construção civil como os principais impactados pela situação. São segmentos com alavancagem financeira elevada, com muitas dívidas atreladas ao CDI, ou dependem fortemente do crédito para financiar as operações. Ou então são setores muito sensíveis à desaceleração da atividade econômica, que ocorre quando os juros aumentam e o crédito fica mais caro aos consumidores.

O momento atual não tem poupado ninguém, pegando inclusive companhias grandes, segundo Roberto Zarour Filho, sócio de reestruturação e insolvência do Lefosse Advogados, citando desde os pedidos do grupo de educação FMU e da Cervejaria Petrópolis. “As primeiras vítimas são as companhias mais alavancadas, porque têm que pagar um serviço de dívida maior”, diz.

Recuperação judicial

A expectativa é de um aumento na quantidade de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial, que já vem em alta, no futuro próximo. O estudo da Íntegra identificou que o impacto da alta dos juros sobre os pedidos tende a ser observado após cerca de dois anos.

No ano passado, foram registrados 2.273 pedidos de recuperações judiciais, conforme dados da Serasa Experian. Esse foi o mais alto índice contabilizado desde o início da série histórica, em 2005, e representa um aumento de 62% em relação a 2023.

A Íntegra vê a possibilidade desse número fechar em 2,5 mil até 2027, puxado por pequenas e médias empresas, que não têm para onde correr. Franco diz que a Íntegra tem visto um aumento na procura de empresários interessados em entender como a recuperação judicial pode ajudar, com muitos buscando se antecipar aos problemas, em parte graças à quebra do estigma em relação ao instrumento.

O mesmo movimento é visto por Zarour. Segundo ele, o Lefosse tem sido buscado tanto por empresas que devem, quanto por credores que querem garantir o recebimento de seus recursos. Ele diz que os empresários com quem conversou ficaram apertados pela combinação de aumento de custos, com o dólar em alta, diminuição do fluxo financeiro em função da queda das vendas, além da alta dos juros, para pagar o serviço de dívida.

“Às vezes as vendas não diminuíram, mas as margens contraíram, porque fica difícil repassar aos consumidores todo o aumento de custo, sobrando menos dinheiro para pagar as dívidas”, diz.

Se o risco de aumento dos pedidos de recuperação está aumentando, as chances de uma empresa conseguir retomar suas atividades também aumentaram. Franco diz que os empresários começaram a perder os preconceitos, com muitos buscando se antecipar aos problemas, em parte graças à quebra do estigma em relação ao instrumento.

“Cresceu a consciência de que não dá para esperar, pedir a recuperação judicial quando não há outra alternativa. Uma das piores coisas que podem acontecer é uma empresa entrar em recuperação judicial sem nada de caixa”, diz.

Franco destaca que os bancos também estão mais bem preparados, criando áreas de reestruturação, e a atualização da Lei de Recuperação Judicial, em 2020, com a inclusão de novos dispositivos, como prazos mais extensos para pagamento pelas empresas e conversão de dívida em equity, também tornaram o processo menos dolorido. “Os agentes estão melhor preparados do que há dez anos”, diz.

Pelo lado das grandes empresas, a profundidade que o mercado de capitais brasileiro ganhou nos últimos anos criou alternativas para as companhias, segundo Anderson Brito, chefe do banco de investimento do UBS BB.

Ele diz que, no momento, há espaço para empresas recorrerem a private equities e financial sponsors, quando não há necessidade de uma ampla necessidade reestruturar o capital, com um aporte sendo suficiente para adequar a estrutura de dívida.

“Têm ativos muito bons que há dois, três anos desenvolveram uma alavancagem num ambiente de juros em que a discussão era se, no longo prazo, os juros chegariam a 10%. Agora, num panorama em que vai chegar a 15%, às vezes vale fazer um aporte, justamente porque são bons”, afirma.

Brito também vê o mercado aberto para quem precisa buscar recursos, mas destaca que as empresas terão de pagar um preço para ter acesso aos recursos. “Ativos que passam por uma readequação da estrutura de dívida, com conversão para equity, e que, após a conversão, o ativo fica menos alavancado, o mercado de equities estará aberto”, diz.

Quem recorreu a esse movimento foi a Gol. Em reestruturação desde janeiro do ano passado, a companhia apresentou um plano que prevê, dentre outras medidas, uma conversão de ações que permitirá reduzir em até US$ 1,7 bilhão sua dívida antes do início do procedimento de Chapter 11 e até US$ 850 milhões de outras obrigações.

Para venda de ativos, algo ao qual a Hidrovias do Brasil recorreu em fevereiro, vendendo sua operação de cabotagem, o mercado também permanece favorável para aqueles que possuem um histórico comprovado e que são geradores de caixa. Nessas condições, Brito diz que as vendas estão saindo no “all time high”.

“O que existe mais dificuldade atualmente são ativos em que o valor está na perpetuidade, que não tem geração de caixa”, diz. “Está saindo M&A, vemos um incremento de 10% quando a gente compara o nosso pipeline entre 2024 e 2025.”

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Neofeed

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